
A importância do movimento conservador para a evolução de nosso conhecimento é muito bem representada pelos seguintes trechos:
"Você está numa situação histórica definida por uma série de patamares já conquistados. Esses patamares criaram a situação. Você está em cima disso e quer fazer de conta que é o primeiro, quando não é. Até a sua linguagem já está determinada por toda essa evolução; aquelas contribuições todas estão de certo modo embutidas ali. Se você acha que pode fazer o conhecimento avançar partindo da negação de que alguém tenha descoberto alguma coisa antes de você [doutrinas revolucionárias, por exemplo], não vai chegar a nada. Isso quer dizer que, quanto mais existe cultura acumulada, menos você tem o direito de ignorá-la. Por que? Porque a sua situação existencial já está definida ... Não só os seus conhecimentos são definidos por essa acumulação, mas também a sua própria situação existencial. Desde pequeno você recebeu uma educação, vive dentro de um quadro jurídico, social, político, moral, etc. já definido por toda essa acumulação. Você depende dela em tudo o que faz, é um filho da civilização. Então, se quer brincar de Adão no paraíso, para começo de conversa você está mentindo." p. 45
"Quando o sujeito começa a falar em nome da humanidade como se fosse o porta-voz da consciência humana universal, ele está no mundo da lua ! Você só passa cognitivamente para uma época se de fato absorveu o que foi dado até lá. E nunca se passa "coletivamente" [como queriam Engels, Marx, Lenin, Trotski, Stalin, Mao, Hitler, Mussolini, Darwin, Aiatolá Khomeini, ... em oposição ao que ensinava Cristo, que não falava em nome da humanidade - pelo contrário, foi morto por ela - e que dizia que a salvação é individual; Sócrates, Buda, São Tomás de Aquino, Santos, ...], nunca, porque coletivamente cada sujeito que nasce, nasce na Idade da Pedra. Você não é muito diferente do homem da Idade da Pedra, então vai ter que percorrer de novo todas aquelas etapas. Cada um tem que percorrer trabalhosamente por si para poder chegar ao seu próprio século!" p. 49
"O filósofo grego rompia com a religião dominante; aquela religião constituía-se apenas de mitologia e cultos, não tinha uma teologia, não tinha um legado de experiências místicas já sistematizado, arrumado, não tinha nada disso. Agora, no cristianismo sim. Nesse ínterim, as pessoas que passaram por isso, os teólogos, os místicos, etc., descobriram muita coisa. Se você, porque não quer ficar na religião, ignora tudo isso, está cometendo o pecado mortal de 'adamismo', está achando que é o primeirão quando na verdade não é. E provavelmente vai cometer erros que já foram cometidos e corrigidos há mil anos. Você volta para trás. É isso que Shelling quis dizer com 'caiu para um nível pueril'." p. 45
"Aquelas técnicas dialéticas todas criadas depois, ao longo de um milênio de Escolástica, elas todas existem, existem e funcionam. Você não pode fazer de conta que nada disso aconteceu e, em pleno ano 2000, montar uma discussão baseada em erros de lógica que em 1200 os caras já tinham desmontado. Isso é um barbarismo - se bem que as pessoas fazem esse barbarismo, e muitas são pagas para fazê-lo, recebem, fazem uma carreira e ganham prêmio Nobel fazendo-o." p. 47
Um exemplo de patamar adquirido mencionado é o seguinte:
"O dinheiro, a riqueza, é um poder somente em certas situações determinadas, em que a base do poder destrutivo já está hierarquizada. Quando quebra essa base, o dinheiro não é mais poder algum. Isso Sun Tzu já sabia e os caras não sabem até hoje: o pessoal da ONU não sabe, tem muito estrategista pago pelo governo americano para dizer bobagem que não sabe disso ... {Aluno: Lenin sabia disso, não é?} Nossa! Lenin sabia, sabia! Quem é que não sabe que, entre o rico desarmado e o pobre armado, quem manda é o pobre? [este pode ser considerado um dos motivos pelo qual o rico se arma pelo Estado e pela Segurança Privada] Isto é um desses patamares, como o ápeiron: depois que o homem enunciou (...) não tem jeito de você voltar atrás. Isso é um princípio. Esse negócio das castas e dos poderes que eu tenho explicado, tudo isso é terreno conquistado; você tem o direito de querer descobrir mais alguma coisa, o que não pode é ignorar isso e, se fazendo de superior, cair para um nível muito anterior." p. 49/50
CARVALHO, Olavo de in Pré-socráticos - coleção história essencial da filosofia, Aula 5, 1a edição, São Paulo, É Realizações Editora, 2006
Felizmente uma parte do conhecimento humano encontra-se hoje protegido pela ciência probabilística – essa que existe hoje – conhecimento científico, que ao exigir fundamentação daquele que pretende substituir/superar um conhecimento já adquirido, protege esse conhecimento contra o "adamismo".
A outra parte (nem todo o conhecimento está sujeito à ciência empírica, como, por exemplo, a ciência política, a jurídica, ...), porém, criada em séculos de aplicação da dialética e da lógica aristotélicas (ciência no formato aristotélico), ausente muitas vezes da probabilística supervalorizada no Iluminismo, só encontra defesa em mentes conservadoras, para as quais o que vale é a Veracidade e não a Atualidade de uma nova idéia.
E é dessa forma, partindo do conhecimento que já foi criado, disponibilizado no passado, que podemos (A) reconhecer que:
(1) na CIÊNCIA POLÍTICA, o conceito de propriedade, por exemplo, que antes significava posse, liberdade e vida (LOCKE, John in Segundo tratado sobre o governo, 1ª edição, São Paulo, Editora Martin Claret, 2002, ps. 69 e 123, sim um iluminista), passou a significar apenas posse ou, em alguns casos, a injusta apropriação daquilo que deve pertencer a todos (comunismo), retrocesso até hoje rebatido, como no caso do conservador Kirk Russel, para quem a forte conexão entre propriedade e liberdade era um princípio de sua doutrina conservadora;
(2) na CIÊNCIA JURÍDICA, o conceito de propriedade passou a incluir um novo elemento (ainda que acessório) denominado “função social” antes inexistente, conforme artigo 5º, inciso XXIII da Constituição Federal de 1988, elemento por meio do qual podemos constantemente reclassificar as propriedades em classes conforme for o entendimento de “função social” de uma dada época, de um dado governo – propriedade de primeira classe - a que tem função social e é protegida especialmente pelo caput do artigo 5º da Constituição – e propriedade de segunda classe - a que não tem função social e, consequentemente, não recebe a mesma proteção, podendo ser invadida por integrantes de movimento social que em determinada época é tido como representante do que se entender por função social (como é o caso do MST atualmente)
só para citar alguns exemplos, e, após reconhecer isso, (B) apontar com mais “propriedade” uma melhor trilha a ser seguida, evitando erros que por vezes já foram cometidos e corrigidos há mais de 1000 anos.