sábado, 18 de julho de 2009

A VELOCIDADE DA ACUMULAÇÃO DE CONHECIMENTO


Pergunto-me se é correto buscarmos no passado padrões que possam ser projetados no futuro a fim de adquirirmos uma pequena idéia do que está por vir. E faço essa pergunta pensando no argumento cada vez mais freqüente de que o conhecimento humano se multiplica em espaços de tempo cada vez menores. Alguns defendem essa multiplicação na base da especulação (1). Outros a defendem a partir de alegados registros históricos (2). De qualquer forma, a idéia é basicamente a mesma: o conhecimento que levamos X.000 anos para acumular foi duplicado, em seguida, em X00 anos, depois em X00/2, depois em 50, e agora, em algumas áreas do conhecimento, especula-se que a multiplicação do conhecimento já esteja ocorrendo em 20 anos e quem sabe em quantos anos será amanhã.

Se considerarmos este um padrão do passado que continuará a se repetir no futuro – e entendo razoável podermos pensar dessa forma (até um limite de esgotamento das formas – e é aí que minha preocupação se encontra) – parece-me muito razoável também concluir que o conhecimento se multiplicará (e perceba que já não estamos nem mais falando da multiplicação do conteúdo original, mas sim do conteúdo já multiplicado outras tantas vezes antes) em espaços de tempo cada vez mais curtos, chegando a um determinado ponto em que o conhecimento e as mudanças dele decorrentes* ocorrerão em velocidade superior à própria velocidade intelectual do homem de avaliá-los e, em relação a eles, reagir conscientemente. E não me parece que essa análise esteja tão distante da realidade, em especial quando vemos a ampliação do conhecimento sendo acelerada pelo deslocamento do ato humano de criar de mentes individuais para ambientes coletivos (WIKI), situação que a agrega mentes individuais de tal forma a permitir o nascimento de soluções que não poderiam ter sido concebidas em uma mente singular com a facilidade com que o são nesse novo ambiente.

Se essa constatação carrega uma visão maravilhosa da capacidade humana, também levanta uma importante questão sobre o futuro da própria estrutura social nesse cenário. Como a estrutura social se comportará (inclusive para se autopreservar do caos, quando necessário) se a velocidade da ampliação do conhecimento gerar mudanças em velocidades superiores à capacidade humana individual de avaliá-las? Como o homem conseguirá dizer antes da ocorrência de uma dada mudança se ela (pelas suas conseqüências) será boa ou não quando isso demanda tempo maior de avaliação do que o tempo necessário para que a própria mudança ocorra? Como saberemos que uma determinada estrutura social (relacionamento entre indivíduos), institucional, tecnológica, religiosa, psicológica, econômica, política, algum valor ou garantia não estão sendo atingidos negativamente se nossa capacidade de realizar exatamente essa avaliação e de dar uma resposta for menos veloz que a própria velocidade da mudança analisada?

Acredito que essa relação entre a velocidade da mudança e a velocidade da avaliação da própria mudança pelo homem a tempo de reagir será um elemento determinante para a manutenção da estabilidade (evolução) ou a instauração do caos (revoluções – pequenas, médias e grandes). (3) Se considerarmos que o equilíbrio dessa relação (velocidade de mudança / velocidade de avaliação) sofrerá cada vez mais com o aumento cada vez maior do conhecimento e que isso poderá nos levar a uma época em que tudo se tornará uma potencial revolução, podendo aumentar o “nível de caos” das atuais estruturas humanas, acredito que está na hora de começarmos a pensar em como articular o conhecimento humano que existirá em dimensões oceânicas num futuro não muito distante.

Se antes o homem vivia num mundo físico enorme, em que a distância de um lugar ao outro poderia ser uma vida – uma odisséia – e num mundo intelectual relativamente pequeno e simples, em que um homem podia ser um grande pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, matemático, fisiólogo, químico, botânico, geólogo, cartógrafo, físico, mecânico, escritor, podera e músico, tudo ao mesmo tempo, agora essa relação parece estar se invertendo. À imensidão do mundo físico demos uma resposta que o transformou numa aldeia global. Criamos navios, trens, carros, aviões e estabelecemos uma nova relação do espaço/tempo com nossas pernas que, com essas extensões, deixaram de ser as mesmas (4). Que resposta daremos à imensidão do mundo do conhecimento? O que criaremos para navegarmos nesse oceano de informações em expansão cada vez mais rápida?

Ainda não consegui chegar perto dessa resposta. Mas tenho a sensação de que, na sua ausência, a segurança das estruturas humanas (comunitárias, econômicas, religiosas, institucionais, psicológicas, políticas, tecnológicas, valorativas, comportamentais, etc.) estará em mãos conservadoras.

(1) fontes especulativas

http://pt.shvoong.com/humanities/1646754-poder-conhecimento/
http://dowbor.org/resenhas_det.asp?itemId=8d4c10e5-6c41-4dd5-999d-370c475495db
http://www.ebah.com.br/a-criacao-do-pensamento-digital-generico-a12274.html
http://www.caosmose.net/candido/unisinos/textos/soconhedigital_vi_simposio.pdf
http://www.senado.gov.br/sf/publicacoes/diarios/pdf/sf/2004/03/30032004/08836.pdf
http://www.biodiversidadla.org/content/view/full/5024
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4273.pdf

(2) fontes (mais ou menos) científicas

http://www.wfs.org/
http://74.125.47.132/search?q=cache:J0dNgSDt0mIJ:www.mundoinnova.com.br/006_outubro_08/editorial.html+curva+%22multiplica%C3%A7%C3%A3o+do+conhecimento%22&cd=4&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
http://claudionasajon.blogspot.com/2009/04/aprenda-aprender-receitas-ficam-velhas.html
http://www.pp.ufu.br/arquivos/05.pdf

(3) Acredito, inclusive, que o surgimento do nazismo e comunismo é fruto da desestabilização dessa relação (mudança e capacidade de avaliação), uma vez que já tínhamos à época plena capacidade de identificar a inviabilidade, periculosidade e atraso humano desses movimentos, como o fizeram com tranqüilidade e facilidade a Escola Austríaca de Economia, no campo econômico, e Igreja Católica, no antropológico e social, e mesmo assim não conseguimos avaliar e reagir a tempo.

(4) MCLUHAN, Marshall in Understanding Media – the extensions of man, London and New York, Routledge, 2002 – acho a seguinte frase um exemplo interessante de como uma extensão de um órgão nosso pode influenciar a estrutura social: “Until teh 1820s, Handlin tells us, Bostonians walked to and fro, or used private conveyances. Horse-drawn buses were introduced in 1826, and these speeded up and extended business a great deal.” “Now that we have extended not just our physical organs but the nervous system, itself, in electric technology, the principle of specialism and division as a factor of speed no longer applies. When information moves at the speed of signals in the central nervous system, man is confronted with the obsolescence [for certain things] of all earlier forms of acceleration, such as road and rail.” ambos extraídos da p. 113

* porque parte do conhecimento novo aprimorará ou substituirá um conhecimento anterior – mudança

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Algumas considerações complementares ao texto:

Se considerarmos esse fenômeno de corrosão da relação entre mudança e capacidade de avaliação em escalas menores, podemos dizer que ele sequer é novidade para a humanidade. Uma das razões da queda do Império Romano pode ser atribuída à conjunção de dois eventos diretamente ligados a essa relação, quais sejam: (1) o aumento das mudanças sociais nas mais diversas localidades do império decorrentes dos deslocamentos pacíficos e agressivos dos povos bárbaros impelidos por outros bárbaros repelidos pelos chineses recém unificados e (2) a diminuição da capacidade do centro gestor do império conhecer, avaliar e responder a essas diversas mudanças em função das dificuldades com o fornecimento do papiro (internet da época) – o que talvez explique o porquê Roma perdeu antes os reinos mais distantes do que os reinos mais fortes (e que, teoricamente, teriam mais capacidade de se desligar do Império).

A mesma relação é válida para entendermos melhor o que ocorreu nos regimes revolucionários ateus (nazismo e comunismo), cujas mudanças que estavam sendo introduzidas, se tivessem sido analisadas com mais cuidado, teriam indicado mais cedo e mais efetivamente para o insucesso completo daquilo que se estava propondo.

Comparar essas previsões de caos às previsões feitas pelos primeiros navegantes sobre os monstros dos confins do planeta pode ter seu propósito. Vale lembrar que a inexistência daqueles tão falados monstros não tornou as conquistas mais fáceis. Acreditar que as dificuldades (sejam elas monstros, sejam elas naturais da própria viagem) não ocorrerão partindo da idéia de que o conhecimento, por ser uma criação do homem, jamais o superaria, não me parece uma postura correta, em especial quando vemos cada vez mais o desenvolvimento de conhecimento pelo deslocamento de mentes individuais para um ambiente coletivo (WIKI) que as agrega e cria soluções que não poderiam ter sido concebidas em uma mente humana individual. Encontraríamos a solução para navegar esse oceano de conhecimento dentro desse mesmo ambiente que o ajudou a criar?
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Textos muito interessantes que li hoje (19.07.09):
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"For exemple, Nicholas Carr, a former editor of the Harvard Business Review, wrote an article entitled "The Ignorance of Crowds" in which he criticized us and others for promoting the power of mass collaboration. Carr argues that “peer production is best viewed as a means for refining the old rather than inventing the new; that it is an optimization model more than an invention model.” He concludes that only a relatively small and formally organized group of talented professionals can produce breakthroughs. As Wikinomics illustrates, nothing could be further from the truth. Some of the most dynamic and exciting products and services today have been produced by teams numbering in the thousands and even millions. Linux – one of the world’s leading operating systems – was developed by the largest and most sophisticated software development community in the world.” TAPSCOTT, Don and WILLIAMS, Anthony D. in Wikinomics – how mass collaboration changes everything, 1st ed., USA, Portfolio, 2008, p. X (preface).
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“‘Wikinomics’ is the new force that is bringing people together on the net to create a giant brain.”

quinta-feira, 16 de julho de 2009

UMA DAS RAZÕES PELAS QUAIS ENCHO TANTO O SACO COM ESSE TEMA (E VOU CONTINUAR ENCHENDO) !!!

SOBRE O SUPOSTO CONFORTO DA VIDA PÓS-MORTE


Muita gente acredita que Deus e religião foram criações humanas que tiveram (e teriam) o objetivo de confortar o homem diante da morte:

“Se a demanda é por conforto diante da morte, então talvez a ciência não possa satisfazê-la.” Richard Dawkins (http://www.genismo.com/religiaotexto33.htm)

“O fato de as pessoas encontrarem alívio e conforto na religião não significa que ela seja verdadeira” – Richard Dawkins (http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/07/02/materia.2009-07-02.9767254921/view)

“Alguns de seus representantes [ateus], incapazes de lidar com a finitude e a falta de promessas místicas de felicidade e amor, acabam relegando sua própria educação ateísta em prol de uma crença que lhes traga mais conforto e sobriedade diante das imposições da vida.” (http://umateudemauhumor.blogspot.com/2009/03/qual-o-sentido-da-vida.html)

“Na minha opinião, esses supostos ex-ateus se desconverteram por duas possíveis razões: (...) eles apenas abdicaram da razão em nome do conforto psicológico.” (http://fernandosilva.multiply.com/journal/item/39)

“Se acreditamos em algum Deus é porque sentimos essa necessidade. É reconfortante diante da idéia da morte inevitável. Os ateus não precisam deste conforto.” (http://www.ronaud.com/bom-senso/minhas-percepcoes-sobre-inteligencia-compreensao-e-descrencas/)

Ao olhar desatento, tais (e tantos outros) argumentos fazem sentido: “vou morrer e depois, bem, depois vem Deus para me ajudar. E isso é reconfortante.” Porém, é importante considerar que:

(1) “o depois” só existe para quem acredita em Deus – ou será que existe algum ateu que acredita em vida pós-morte?

(2) só precisa de conforto quem acredita no “depois”, ou seja, o o crente, ainda que crente de um “Deus particular”

(3) do que concluímos que o ateu: (i) sob a ótica da morte, tem o conforto de não se preocupar com o que vem depois já que não há depois e (ii) sob a ótica da vida, leva “vantagem” novamente ao ter o conforto de poder fazer o que bem entender na vida sem ter que prestar contas à eternidade.

(4) do que também concluímos, em contrapartida, que aqueles que acreditam em Deus e, portanto, na vida pós-morte, muito ao contrário do que pensam e dizem os ateus, estão longe desse tal "conforto" e paradoxalmente tão mais próximos de serem confortados (consolados).

Não fosse essa uma verdade, como teria sido possível escrever:

To be, or not to be: that is the question:
Ser ou não ser, eis a questão:

Whether 'tis nobler in the mind to suffer
Seria mais nobre em espírito sofrer

The slings and arrows of outrageous fortune,
As pedradas e flechadas da enfurecida fortuna,

Or to take arms against a sea of troubles,
Ou levantar nossos braços contra um mar de problemas

And by opposing end them? To die: to sleep;
E pela oposição, vencê-los? Morrer, dormir;

No more; and by a sleep to say we end
Nada mais; e pelo sono dizer que acabamos

The heart-ache and the thousand natural shocks
Com a angústia do coração e os milhares de choques naturais

That flesh is heir to, 'tis a consummation
Heranças da carne, é uma consumação

Devoutly to be wish'd. To die, to sleep;
A ser desejada com fervor. Morrer, dormir;

To sleep: perchance to dream: AY, THERE'S THE RUB;
Dormir ... talvez sonhar: AH, AÍ SURGE O PROBLEMA;

For in that sleep of death what dreams may come
Pois no repouso da morte, que sonhos virão?

When we have shuffled off this mortal coil,
quando livres do tumulto da existência,

Must give us pause: there's the respect
Teremos paz? Eis o ponto

That makes calamity of so long life;
Que faz calamidade dessa vida tão longa.

For who would bear the whips and scorns of time,
Afinal, quem sofreria os açoites e o desprezo do tempo,

The oppressor's wrong, the proud man's contumely,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,

The pangs of despised love, the law's delay,
Os tormentos do amor menosprezado, as demoras da lei,

The insolence of office and the spurns
A insolência oficial e as recusas com desdém

That patient merit of the unworthy takes,
O mérito paciente, quem o sofreria,

When he himself might his quietus make
Quando alcançasse a mais perfeita morte

With a bare bodkin? who would fardels bear,
Na ponta de um punhal? Quem carregaria os fardos,

To grunt and sweat under a weary life,
Gemendo e suando sob a vida fatigante?

But that the dread of something after death,
Mas o pavor de alguma coisa após a morte,

The UNDISCOVER'D COUNTRY from whose bourn
O PAÍS DESCONHECIDO de onde o viajante lá nascido

No traveller returns, puzzles the will
Jamais retorna, confunde o desejo

And makes us rather bear those ills we have
E nos faz escolher carregar os males que temos

Than fly to others that we know not of
Do que voar para outros que não conhecemos

Thus conscience does make cowards of us all;
Assim a consciência nos transforma todos em covardes

And thus the native hue of resolution
E assim a tez normal da determinação

Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
É adoentada por um pálido lance de pensamento;

And enterprises of great pitch and moment
E empreitadas de ousado escopo e impulso,

With this regard their currents turn awry,
Nessas considerações, desviam-se do rumo

And lose the name of action.
e deixam de se chamar ação.

Shakespeare – Hamlet

terça-feira, 14 de julho de 2009

ENERGIA ATÔMICA - ESTRANHO A ESQUERDA ACUSAR O CAPITALISMO DESSE MAL ...


STALIN

Rejeitou o PLANO BARUCH, plano apresentado pelos EUA, então único detentor da tecnologia atômica, em 17 de julho de 1946, “visando a internacionalização do átomo, através do controle, pela organização das Nações Unidas, de todos os aspectos da política nuclear, inclusive a produção de urânio e tório”, fato tido, em conjunto com outros dois, como marco inicial da Guerra Fria – CAMPOS, Roberto A lanterna na popa, v. 1, 4ª edição, Rio de Janeiro, Editora Topbooks, 2001, p.92/93, 103 e 114.

MAO

"Informa-se que Mao declarou ao líder italiano Palmiro Togliatti: "Quem lhe disse que a Itália deve sobreviver [a um ataque nuclear decorrente do enfrentamento da China com o Capitalismo]? Restarão 3 milhões de chineses, e isso será bastante para a raça humana continuar." "A jovial disposição de mao de aceitar a inevitabilidade de uma guerra nuclear e sua possível utilidade como um meio de provocar a derrota final do capitalismo deixou tontos seus camaradas de outros países" em 1957 (HOBSBAWM, Eric in Era dos extremos - o breve século XX, 2a edição, São Paulo, Companhia das Letras, 2002, p. 227, nota*)

CHE

“O caminho pacífico está eliminado e a violência é inevitável. Para conseguir regimes socialistas deverão correr rios de sangue e deve-se continuar a rota da libertação, mesmo que seja a custa de milhões de vítimas atômicas”. (http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=8841&cat=Ensaios&vinda=S), posicionamento esse corroborado em reportagem da Superinteressante sobre o Che (http://super.abril.com.br/revista/sumario-edicao-261.shtml)

Não é de se estranhar Kim Yong-il ... tampouco as diversas pessoas que condenam a bomba atômica de propriedade capitalista no almoço e defendem a de propriedade socialista no jantar.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

SUCK, DIGO SICKO, DO MICHAEL MOORE NO MORE

Assisti ao filme Sicko, do Michael Moore No More, no qual ele filma algumas pessoas chorando (só para variar um pouco ...), usa aquela velha musiquinha do filme Platoon (http://www.youtube.com/watch?v=Ue8VS-bcj88) que ele adora para comover as pessoas, menciona alguns pontos importantíssimos sobre algumas falhas do sistema de Saúde nos EUA sem analisá-los (legalidade/ilegalidade nas negações de cobertura, crime de “despejo de enfermos”, custo do sistema que é obviamente repassado aos consumidores do sistema, dentre outros) e conclui pela defesa de um Estado que faça tudo por você (para que, obviamente, você possa se tornar um ocioso criativo – ou, como costumamos chamar por aqui, um vagabundo), inclusive lavar sua roupa suja.
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Os argumentos são velhíssimos:


ARGUMENTO 1. “Liberdade não pode ser atingida sem bens materiais” – embora concordemos que propriedade e liberdade estão ligadas, a conclusão de que a liberdade só é liberdade se absoluta, o que, dentro desse matriz, exigiria o acesso absoluto aos bens materiais, contrariando, portanto, a estrutura capitalista (que permite a propriedade privada), é uma balela, já que o acesso absoluto aos bens materiais é impossível, não servindo, portanto, o fato de uns terem menos bens (e liberdade) que outros como fundamento para criticar um sistema que supostamente permite essa diferença já que nesse reino da física em que vivemos (sim, o do E=mc2), esse objetivo é inatingível.

ARGUMENTO 2. “Atendimento Médico Gratuito de Urgência na França é demais!” – como se 911 não existisse nos EUA – conheço o serviço pois: (1) já fui atendido por ele lá nos EUA em 1995 e (2) o pai da minha amiga Sarah trabalha GRATUITAMENTE como paramédico para esse serviço (usando o próprio carro dele, com aquela sirene que você coloca do lado de fora)



ARGUMENTO 3. “O sistema de saúde Inglês é melhor do que o dos EUA” – Embora seja de conhecimento geral que o sistema, depois de 61 anos de sua implantação, foi um grande erro da Inglaterra, como bem esclareceu Daniel Hannan, membro do Parlamento Europeu, ao dizer aos congressistas dos EUA: “por favor, não cometam esse erro (sistema único de saúde), é pior para os médicos, é pior para os pacientes e é pior para o contribuinte.” ... mas o sistema de saúde Inglês dá dinheiro para os doentes ...


ARGUMENTO 4. “O sistema de saúde Francês é melhor do que o dos EUA”, como se lá o sistema não estivesse enfrentando o risco da falência (http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(04)15477-9/fulltext)



ARGUMENTO 5. “O sistema de saúde de Cuba é melhor que o dos EUA” – pois a bombinha de respiração custa 5 centavos de dólar lá e 120 dólares no EUA, como se as bombinhas fossem as mesmas, como se essa bombinha cubana não fosse subsidiada por um governo que além de não ter condições para subsidiar uma série de medicamentos que não existem em Cuba, não tem sequer condições de fornecer alimento sem limitar seu consumo. O que você prefere, comprar uma bombinha de respiração por 5 centavos ou poder ter um belo jantar por um baixo custo?

A propósito, esquecemos de mencionar que o próprio No More mostra em seu filme que Cuba ainda consegue “ser pior” que os EUA na lista da ONU dos melhores e piores sistemas de saúde.


ARGUMENTO 6. “Os EUA “socializaram” uma série de coisas”, dentre as quais No More cita:

(i) o Corpo de Bombeiros, esquecendo-se que boa parte do serviço é prestado por voluntários, como minha amiga Sarah (foto abaixo), que recebeu treinamento para prestar gratuitamente o serviço;


(ii) a Educação: (a) como se as grandes mentes não fossem formadas pelas Universidades mais caras do mundo (http://en.wikipedia.org/wiki/Ivy_League) ou (b) como se uma escola particular Católica, por exemplo, não custasse menos por aluno do que uma pública (além de ser BEM MELHOR do que uma pública*)

(iii) os Correios – que cobra para envio de cartas e não menos do que no Brasil (gostaria de postar aqui o tanto de selos que tenho com o custo que tive para enviar correspondências para o Brasil entre 1994 e 1995)

Moore No More, por que voce não citou também: as emissoras de Televisão, as Empresas de Energia Elétrica, o sinal de celulares, o GPS, o McDonald’s, o Wal-Mart, os Shopping Centers, ... Tudo isso foi socializado e alguns deles você nem precisa pagar, como o sinal de GPS, o sinal da TV aberta, os Shopping Centers, ...

ARGUMENTO 8. “O Estado deve criar oportunidades para você receber o máximo de dinheiro possível com o mínimo de esforço viável” – essa e a típica regra do vagabundo que No More defende claramente (eu diria, irritantemente, inclusive) em seu filme. Vem abaixo cenas e respectivas frases lançadas no filme de Michael Moore No More:


Diálogo entre o “doente” do Michael Moore No More e um médico francês: “Ao fim de três meses, fui ao médico e ele me perguntou: ‘Você quer voltar ao emprego?’ Eu disse: ‘Não, não em parece que eu esteja em condições. Neste momento não estou pronto.’ [!?!?!] ‘De quanto tempo precisa?’ [perguntou o médico] ‘Bem, não sei.’ ‘Três meses está bom?’ [!?!?!] ‘Sim, acho que três meses está ótimo.’ ‘Então tire três meses.’ E escreveu uma nota, que dei ao meu empregador para assegurar que eu seria pago. [ah, haaaa]” E o que esse “bum” ou devo chama-lo de “doente” fez de tão importante que coloca o sistema de saúde francês no topo do céu do No More? Foi para as praias do sul da França, com três meses de salário garantido, como No More faz questão de enfatizar como grande virtude do sistema francês de saúde. Veja as fotos abaixo:


Esse bem-bom com dinheiro alheio não é de se estranhar, afinal, a França é, segundo No More, uma maravilha por também garantir aos seus cidadãos, como ele boquiaberto bem destaca: apenas 35 horas de trabalho semanais (porque, segundo ele, a produtividade francesa é maior do que a americana – yeah, right !?!), férias de 5 semanas (!!!, sim, 5 semanas), 7 dias para lua-de-mel (em acréscimo às 5 semanas de férias, como ficou bem destacado no filme), 1 dia livre para mudar de uma casa para outra e, não sei se acredito - mas Moore No More ficou bastante entusiasmado - o governo manda um agente para sua casa para lavar sua roupa suja, se necessário ... sem comentários, vou entrar naquela comunidade do Orkut “Eu tenho vergonha alheia” pelos franceses e pelo No More.




Michael (No More), saiba que a Europa não vive num mundo de “nós” como você diz no filme ao fazer oposição aos EUA, que supostamente viveria num mundo de “eu”. A Europa vive num mundo do “Cadê o meu?”.

“You only have to travel to Europe to see the diffrerence that na entitlement culture makes. While the United States is a vibrant, creative, and exciting place [não mais como antigamente], Europe today is largely stagnant. Workers there have little incentive to move ahead, because the rate of taxation is punishing and the governments guarantee a certain standard of living. In France, young people demonstrated for weeks because the government wanted a new law that would allow employers to actually fire them during the first two years of employment if they screwed up on a regular basis. But nooooo [esse nooooo é do próprio autor], we can’t have that! The French sense of entitlement basically says “You owe me prosperity, government. You owe me.” Where have we heard that before?” O’REILLY, Bill Culture warrior, 1a edição, New York, Broadway Books, 2007, p. 117

O filme conseguiu ser pior que Fahrenheit 911. Como diriam os americanos, ele é OUTRAGEOUS !

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*“In Washington D.C., according to the National Center for Education Statistics, public school spending on each pupil is now over $10,000 per child per year, an astounding amount and about double what it was thirty years ago. D.C. Catholic schools spend far les per pupil than the public schools do. And – you guessed it – test scores for the Catholic school kids are far higher then those for the Catholic school kids are far higher than those for the public school students. In fact, 98 percent of kids graduation from D.C. Catholic schools go on to college, while almost 40 percentage of D.C. public school students never graduate from high school; they drop out.” O’REILLY, Bill Culture warrior, 1a edição, New York, Broadway Books, 2007, p. 141

segunda-feira, 6 de julho de 2009

FRACASSADA TENTATIVA DE GOLPE DE ESTADO EM HONDURAS


Uma combinação de forças entre o Poder Judiciário e o Exército de Honduras heroicamente* impediram que o Presidente da República daquele país, Manuel Zelaya, membro do Foro de São Paulo, empreendesse um Golpe de Estado em Honduras.

Segundo o mais importante Documento do Estado de Direito de Honduras, sua Constituição de 1982, "o cidadão que tenha desempenhado a titularidade do Poder Executivo não poderá ser Presidente ou Designado. Aquele que ofender esta disposição ou PROPUSER SUA REFORMA, bem como AQUELES QUE A APÓIEM DIRETA OU INDIRETAMENTE, terão cessados DE IMEDIATO o desempenho de seus respectivos cargos e ficarão inabilitados por dez anos para o exercício de toda função pública":

ARTICULO 239. El ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Designado. El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos, y quedarán inhabilitados por diez años para el ejercicio de toda función pública. (http://www.honduras.net/honduras_constitution2.html)

Isso porque, como bem estabelece o artigo 4º dessa Constituição, a “alternância do exercício da Presidência da República” é fundamento constitutivo do Estado de Direito de Honduras. Veja: "a infração a esta norma [como pretendia o ex-presidente Manuel Zelaya] é DELITO DE TRAIÇÃO À PÁTRIA:

ARTICULO 4. La forma de gobierno es republicana, democrática y representativa. Se ejerce por tres poderes: Legislativo, Ejecutivo y Judicial, complementarios e independientes y sin relaciones de subordinación. La alternabilidad en el ejercicio de la Presidencia de la República es obligatoria. La infracción de esta norma constituye delito de traición a la Patria. (http://www.honduras.net/honduras_constitution.html)

Essa proteção do Estado de Direito contra os típicos caudilhos latino-americanos é tão importante que, além de estar espalhada por toda a Constituição (artigos 4º, 239, 240, 374) está protegida como CLÁUSULA PÉTREA pelo artigo 42, que estabelece a pior pena cívica existente para quem o desrespeitar [“incitando, promovendo ou apoiando o continuísmo ou a reeleição”]: a perda da cidadania !

ARTICULO 42. La calidad de ciudadano se pierde: (…) 5. Por incitar, promover o apoyar el continuismo o la reelección del Presidente de la República; (http://www.honduras.net/honduras_constitution2.html)

Mais claro que isso impossível, certo!? Errado. A Constituição de Honduras consegue ser mais clara ainda ao estabelecer em seu artigo 374 que “não poderão ser reformados, em NENHUM CASO, o artigo anterior, o presente artigo, (...) A PROIBIÇÃO PARA SER NOVAMENTE PRESIDENTE DA REPÚBLICA, (...)”:

ARTICULO 374. No podrán reformarse, en ningún caso, el artículo anterior, el presente artículo, los artículos constitucionales que se refieren a la forma de gobierno, al territorio nacional, al período presidencial, a la prohibición para ser nuevamente Presidente de la República, el ciudadano que lo haya desempeñado bajo cualquier título y el referente a quienes no pueden ser Presidentes de la República por el período subsiguiente. (http://www.honduras.net/honduras_constitution2.html)

Felizmente a Corte Suprema de Justiça de Honduras, guardiã da Constituição, com fundamento em seu artigo 319 e com o apoio do Exército e da POPULAÇÃO (http://www.youtube.com/watch?v=Rze7UpC4pwQ&feature=PlayList&p=ADD6706997D19BD1&playnext=1&playnext_from=PL&index=2), em estrito cumprimento do dever legal e constitucional previsto nesses artigos citados acima, agiu rapidamente para evitar o golpe que estava prestes a ser dado pelo Ex-Presidente da República, fazendo valer o termo “DE IMEDIATO” constante no artigo 239. Viva a Democracia !!!

Enquanto isso, no Brasil: http://www.pt.org.br/portalpt/index.php?option=com_content&task=view&id=9910&Itemid=195 Quisera o Brasil ter um artigo 239 também !

*pois se opõe a todos os países do Foro de São Paulo + EUA, que tem um presidente notoriamente conhecido no pequeno círculos das pessoas informadas por seu deliberado desrespeito ao artigo 1º do Título II da Constituição dos EUA (http://www.usconstitution.net/const.html#A2Sec1).

domingo, 5 de julho de 2009

APOLOGIA AO NAZISMO É CRIME ! E AO COMUNISMO/SOCIALISMO?


“Durante a audiência de segunda-feira, o promotor cambojano perguntou a Duch quem ordenava que os guardas matassem bebês batendo-os contra árvores. ‘Eu não ordenei tal crime, mas acredito que meus camaradas o fizeram’, respondeu o réu.” (...) “‘Quando as crianças chegavam ao centro, eu dava as ordens para matá-las, porque temíamos que essas crianças fossem se vingar’, disse Duch, de 66 anos, ao tribunal.” (...) “Kaing Guek Eav, o Duch, primeiro de cinco dirigentes a serem julgados pelas atrocidades do regime (1975-79) que matou 1,7 milhão de cambojanos, disse aceitar a responsabilidade pela morte das crianças, mas alegou estar apenas cumprindo ordens.” (gn) http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPE55705320090608

Para quem não sabe, o Khmer Vermelho foi o partido comunista que tomou o poder no Camboja após a saída dos EUA da Guerra do Vietnã (e, portanto, da região), quando deixou de apoiar o governo local em sua guerra contra os comunistas (http://pt.wikipedia.org/wiki/Khmer_Vermelho), comunistas que, ao assumirem o poder, mataram de 1,5 a 3 milhões de pessoas de uma população de 7 milhões cambojanos.

Hoje me pergunto: o que leva alguém a se declarar comunista ou socialista? Desde a criação da doutrina comunista se fala na eliminação de “povos inferiores”, como fiz constar em meu artigo NÃO FOI MERA COINCIDÊNCIA OU SIMPLES OPORTUNISMO ... DARWIN PENSAVA MESMO ISSO:, e isso nunca foi diferente em nenhum regime comunista que existiu na Terra. Os fatos estão aí para comprovação: o comunismo contempla o genocídio tanto em sua natureza teórica [expressamente defenderam o genocídio: Marx, Engels, Lênin, Che, Pol Pot; implicitamente: tantos outros] como em sua natureza pragmática [Lênin, Stalin, Che, Fidel Castro, Pol Pot e tantos outros]. Estou certo de que com o distanciamento histórico chegaremos ao dia em que uma declaração dessa (“sou socialista” ou “sou comunista”) será considerada um crime, como é e tem que ser uma declaração a favor do nazismo (artigo 20, §1º da Lei 7716/89).
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ENGELS - escreveu na "Nova Gazeta Renana", em janeiro de 1849, que quando a luta de classes ocorresse, haveria sociedades primitivas com atraso de até dois estágios (ele até deu alguns exemplos - bascos, bretões, escoceses, sérvios), por eles chamados de "lixo racial", que precisariam ser eliminadas.

MARX - escreveu que os "povos inferiores”, como chamou o que julgou serem povos não preparados para a revolução, “devem perecer no holocausto revolucionário”.

LENIN – “não se fazem omeletes sem se quebrar alguns ovos”, lema repetido até hoje, como podemos, por exemplo, constatar no site do PSTU: http://www.pstu.org.br/cont/%7BDD52BE57-E941-4DB9-8B47-07D5A8610E6A%7D_artigo_2005_valerio_ong.pdf

CHE – “É claro que executamos!”, disse Che, que participou da execução de mais pessoas do que Milesovic em seu genocídio na Sérvia, que horrorizou recentemente o mundo (quase o dobro, para ser mais exato – aproximadamente 14.000 pessoas)




STALIN – 7 milhões de mortos em um ano - (sem falar todos os outros milhões de mortos pelo seu regime) - veja o seguinte vídeo (que é tão forte que você precisa confirmar ter mais de 18 anos):



MAO - "O poder político nasce do cano da espingarda." "Ler demasiados livros é perigoso." Esse é o cara que conseguiu matar aproximadamente 65 milhões de pessoas "com um livro".

"Informa-se que Mao declarou ao líder italiano Palmiro Togliatti: "Quem lhe disse que a Itália deve sobreviver [a um ataque nuclear decorrente do enfrentamento da China com o Capitalismo]? Restarão 3 milhões de chineses, e isso será bastante para a raça humana continuar." "A jovial disposição de mao de aceitar a inevitabilidade de uma guerra nuclear e sua possível utilidade como um meio de provocar a derrota final do capitalismo deixou tontos seus camaradas de outros países" em 1957 (HOBSBAWM, Eric in Era dos extremos - o breve século XX, 2a edição, São Paulo, Companhia das Letras, 2002, p. 227, nota*)

E TUTTI QUANTI...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

SINAIS DO TEMPO - PSDB

Quando eu perguntei em meu artigo FORO DE SÃO PAULO - NOVO ALERTA se:

“Você não acha ao menos estranho sair repetindo por aí que o PSDB é um partido de direita quando descobre que SERRA, que parece um pacato e insistente partidário da direita foi membro e líder estudantil na Ação Popular, grupo de jovens com origem nos seguintes movimentos: Juventude Estudantil Católica (JEC), a Juventude Operária Católica (JOC) e a Juventude Universitária Católica (JUC), que, após o golpe de 64 e seu exílio, se tornou terrorista (tendo mudado de nome em 1971 para Ação Popular Marxista-leninista, cujo programa era tão radical que não era aceito nem mesmo pelo PC do B). Sim, Serra, o José, que como FHC, foi acolhido pela mesma Universidade de Princeton citada acima na década de 70.”

além de outras duas perguntas que lancei tratando de eventos que apontam para o fato do PSDB ser um partido de esquerda, ou mesmo quando falo desse tema, muitos me devolvem um olhar com um enorme sinal de interrogação e, ao final, acham difícil de acreditar.

Pois bem, Roberto Freire, presidente do PPS, um dos líderes de esquerda mais sérios ainda vivos nesse país, entende que Serra é mais esquerdista do que Lula e declara seu apoio à candidatura de Serra para a presidência 2010:

quinta-feira, 25 de junho de 2009

MARIO FERREIRA DOS SANTOS


Entrevistador: Considerando que Deus é perfeito e perfeitamente bom, perfeitamente justo e, com base nisso, que o mal que existe no mundo não poderia ter sido criado por Ele, tampouco "distribuído" de forma tão irregular entre as pessoas, de onde surgiu o mal? De um outro ser primeiro como Deus? De Deus mesmo?

Mario Ferreira dos Santos: "(...); dentro desta concepção ["certas oposições não deixam de ser obedientes à lei do próprio um" porque são oposições que estão dentro do próprio um e são provadas a todo segundo pelas mudanças que vemos no próprio um, decorrentes do relacionamento dessas oposições - esse um é qualquer coisa que se tornou existente no universo], compreende-se a corrupção sem necessidade de construir um princípio corruptivo que fosse o ponto de partida, o fator e a causa eficiente primeira de toda corrupção, o qual seria, então, um 'outro' poder que se oporia ao poder do Ser. Vê-se, assim, que a corrupção é sempre acidental, que é algo que acontece à substância da heterogeneidade do seu correlacionamento, sem necessidade da presença de um poder principal corruptivo. A concepção escolástica harmoniza perfeitamente o um com o múltiplo, sem necessidade de intervenção de um fato primeiro de heterogeneidade ou de destruição. Mesmo na concepção hindu, Shiva, como aspecto destrutivo de Brahma, também não é uma entidade fora de Brahma; isto é, as ações de Shiva são conseqüências acidentais da própria atuação da lei da unidade. Essa concepção resolve tal problema de modo definitivo e apodíctico."

DO SANTOS, Mario F, A Sabedoria das Leis Eternas, 1a edição, É Realizações, 2001, p. 91.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

HOMEM E SOCIEDADE


“Aprofundando agora a reflexão delineada, e fazendo ainda referência ao que foi dito nas Encíclicas Laborem exercens e Sollicitudo rei socialis, é preciso acrescentar que o erro fundamental do socialismo é de carácter antropológico. De facto, ele considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmente subordinado ao funcionamento do mecanismo económico-social, enquanto, por outro lado, defende que esse mesmo bem se pode realizar prescindindo da livre opção, da sua única e exclusiva decisão responsável em face do bem ou do mal. O homem é reduzido a uma série de relações sociais, e DESAPARECE O CONCEITO DE PESSOA COMO SUJEITO AUTÔNOMO DE DECISÃO MORAL, QUE CONSTRÓI, ATRAVÉS DESSA DECISÃO, O ORDENAMENTO SOCIAL. Desta errada concepção da pessoa, deriva a distorção do direito, que define o âmbito do exercício da liberdade, bem como a oposição à propriedade privada. O homem, de facto, privado de algo que possa «dizer seu» e da possibilidade de ganhar com que viver por sua iniciativa, acaba por depender da máquina social e daqueles que a controlam, o que lhe torna muito mais difícil reconhecer a sua dignidade de pessoa e impede o caminho para a constituição de uma autêntica comunidade humana.” (gn) Centesimus Annus – 13 (http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_01051991_centesimus-annus_po.html)

O fato do socialismo considerar “cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmente subordinado ao funcionamento do mecanismo económico-social” e afirmar que o “homem é reduzido a uma série de relações sociais” não é novidade para quem vive no Brasil e ouve, quase que diariamente, que as faltas de um ser humano em relação a outro – um crime cometido por um em relação a outro, por exemplo – podem ser justificáveis conforme a posição ocupada por esse indivíduo em relação à “estrutura social [supostamente] injusta”. Se um ato é contrário à “estrutura social [supostamente] injusta”, esse ato é justificável, desejável, ainda que injusto e ilegal. Foi isso que ouvimos, por exemplo, na USP, na semana passada, do crítico literário Antônio Cândido, que ao lado de Marilena Chauí, disse aos alunos: “Atuem, exagerem, sejam justos e injustos” (http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,antonio-candido-e-chaui-dao-equotaulaequot-a-grevistas,388292,0.shtm) Exatamente como lançado pela Igreja acima, para pessoas que pensam assim "desaparece o conceito de pessoa como sujeito autônomo de decisão moral", podendo ser moral algo imoral, justo, algo injusto, lícito (sujeito, portanto, a anistia) algo ilícito.

Para pessoas que pensam assim, crimes cometidos por pessoas tidas por vítimas de uma “estrutura social [supostamente] injusta” são crimes justificáveis (algo muito próximo daquele ditado de que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”) pois um ato só pode ser considerado certo ou errado após contextualizado com a estrutura social no qual se insere. É assim que a corrupção cometida por políticos que se intitularam paladinos da salvação do povo injustiçado é uma corrupção justificável [(a corrupção pela esquerda não é novidade(1)]. É assim que o seqüestro de pessoas (antes realizado pela esquerda, agora pelos criminosos comuns) quando realizados para enfrentar uma “estrutura social [supostamente] injusta” é um ato justificável (vejam no documentário “Manda Bala” um bandido encapuzado, após explicar as técnicas para cortar as orelhas das pessoas seqüestradas, dizer que seqüestrar pessoas é um trabalho decorrente de sua situação social, que não lhe dá outra opção !?! (http://www.youtube.com/watch?v=93f7Ej4enW4&feature=related) É assim que crimes cometidos por movimentos que supostamente enfrentam essa “estrutura social [supostamente] injusta”, como o MST, eg, são crimes justificáveis. É assim que a institucionalização de um furto (via desvio de dinheiro público para ONGs inexistentes, eg) com a finalidade de atender às vítimas da “estrutura social [supostamente] injusta” é um ato justificável. É assim que uma ditadura (quando do proletariado) pode ser (e foi desde o início com Marx) considerada justificável. É assim que intelectuais de intelectualidade duvidosa conseguem, por exemplo, criticar a ditadura brasileira ao mesmo tempo em que apoiam a cubana, criticar o nazismo ao mesmo tempo em que se dizem socialistas/comunistas.

A inversão indevida de valores para a qual a Encíclica Centesimus Annus chama a nossa atenção, qual seja: a qualificação do homem a partir da forma como ele se insere na sociedade, é a fonte de todas essas discrepâncias citadas no parágrafo anterior e de infinitas outras; é a explicação pela qual os governos mais corruptos foram e continuam sendo os revolucionários; é a explicação pela qual os governos que mais mataram e matam (de longe) foram e continuam sendo os revolucionários; é a explicação pela qual as sociedades mais sexualmente permissivas são e continuam sendo as revolucionárias. E é essa inversão que deve ser refutada com a verdade de que não é a mudança da sociedade que, pela mudança de feixes sociais, mudará o homem mas sim a mudança do homem é que mudará a sociedade. Embora a argumentação socialista guarde uma lógica interna (se o homem é qualificado pela posição que ocupa na estrutura social, alterada a estrutura social, alteramos o homem) essa argumentação não é real (não passa se um sofisma, de retórica) pois o homem não é qualificado pela posição que ocupa na estrutura social, já que é verdade fática que não é o homem que decorre da sociedade e sim a sociedade do homem. Ainda que se possa argumentar que existe uma relação dialética entre um e outro, na medida em que o homem influencia a sociedade e vice-versa, é verdade fática que não existe sociedade sem homem, embora possa existir homem sem sociedade.

E é essa inconsistência insolúvel do socialismo, eg, ponto de partida para todos os demais pensamentos dentro dessa doutrina socialista, que a Igreja, no texto acima, enfrenta, dizendo ser o homem o pressuposto da sociedade e não o contrário, motivo pelo qual todo o trabalho começa no homem e não na sociedade. Foi assim desde o início, quando o seu fundador, Jesus Cristo, assim se dirigiu a todos: “sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt5:48). E nem poderia ser diferente: como alguém poderia esperar de homens falhos uma sociedade ideal? O homem bom é o pressuposto da sociedade boa. “O homem tende para o bem, mas é igualmente capaz do mal; pode transcender o seu interesse imediato, e contudo permanecer ligado a ele. A ordem social será tanto mais sólida, quanto mais tiver em conta este facto e não contrapuser o interesse pessoal ao da sociedade no seu todo, mas procurar modos para a sua coordenação frutuosa. Com efeito, onde o interesse individual é violentemente suprimido, acaba substituído por um pesado sistema de controle burocrático, que esteriliza as fontes da iniciativa e criatividade.” Centesimus Annus – 25 (http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_01051991_centesimus-annus_po.html)

Por isso muito mais frutífera a discussão proposta pela Igreja sobre como melhorar o homem do que a discussão proposta pelas ideologias modernas sobre como melhorar a sociedade. É claro que ambos (homem e sociedade) podem ser considerados em conjunto, como bem exposto pela Igreja abaixo, mas nunca sem ter a consciência de que o homem precede a sociedade: “Mas com o mesmo amor, a Igreja é impelida a interessar-se continuamente pelo verdadeiro bem temporal dos homens. Pois, não cessando de advertir a todos os seus filhos que eles "não possuem aqui na terra uma morada permanente" (cf. Hb 13,14), estimula-os também a que contribuam, segundo as condições e os recursos de cada um, para o desenvolvimento da própria sociedade humana; promovam a justiça, a paz e a união fraterna entre os homens; e prestem ajuda a seus irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes.” Credo do Povo de Deus – 27 (http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/motu_proprio/documents/hf_p-vi_motu-proprio_19680630_credo_po.html)

Não é sem ter tudo isso em vista que a Igreja: (1) recomenda: “para o cristão é válido que, se ele quiser viver a sua fé numa ação política, concebida como um serviço, não pode, sem se contradizer a si mesmo, aderir a sistemas ideológicos ou políticos que se oponham radicalmente, ou então nos pontos essenciais, à sua mesma fé e à sua concepção do homem: nem à ideologia marxista, ou ao seu materialismo ateu, ou à sua dialética da violência, ou, ainda, àquela maneira como ele absorve a liberdade individual na coletividade, negando, simultaneamente, toda e qualquer transcendência ao homem e à sua história, pessoal e coletiva, nem à ideologia liberal, que crê exaltar a liberdade individual, subtraindo-a a toda a limitação, estimulando-a com a busca exclusiva do interesse e do poderio e considerando, por outro lado, as solidariedades sociais como conseqüências, mais ou menos automáticas, das iniciativas individuais e não já como um fim e um critério mais alto do valor e da organização social.” Octogesima Adveniens – 26 e (2) adverte: “Existiria o perigo também de aderir a uma ideologia que não tem na sua base uma doutrina verdadeira e orgânica e de refugiar-se nela como se se tratasse de uma explicação cabal e suficiente de tudo, e de arranjar, de tal modo, para si mesmo, um novo ídolo, de que se aceita, por vezes sem disso dar-se conta, o caráter totalitário e constrangedor. E pensa-se encontrar nisso uma justificação para o próprio agir, MESMO QUE ESTE SEJA VIOLENTO, uma adequação para um desejo generoso de serviço; este permanece, mas deixa-se absorver numa ideologia que, muito embora proponha certas vias de libertação para o homem, acaba finalmente por escravizá-lo.” Octogesima Adveniens – 26 (http://www.vatican.va/holy_father/paul_vi/apost_letters/documents/hf_p-vi_apl_19710514_octogesima-adveniens_po.html)
.
(1) "(...) no governo João Goulart, quando os comunistas proclamavam estar no poder, o amigo do presidente não era o trapalhão P.C. Farias, mas um gênio do tráfico de influência, Tião Maia, que após a queda de seu protetor comprou a vigésima parte do território da Austrália, onde é hoje [fevereiro de 1995] a quarta maior fortuna do país. Quando lhe perguntam "Como?", ele responde: "O Banco do Brasil foi uma mãe para mim". CARVALHO, Olavo de in O imbecil coletivo I - atualidades inculturais brasieiras, 6a edição, São Paulo, É Realizações Editora, 2006, p. 235

VERDADE SOBRE A VERDADE !

"Provai e vede que o Senhor é bom! Bem-aventurado o homem que Nele confia."
Sl 34:8

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida." disse o Senhor
Jo 14:6

"Provai e vede que a Verdade é boa! Bem-aventurado o homem que nela confia."
reflexões na missa de sétimo dia da minha avó
e não é que é verdade !

domingo, 14 de junho de 2009

TED TURNER


O que TED TURNER, fundador do canal CNN e um dos maiores sócios do grupo Time Warner, diz sobre:

IRÃ – “Eles são um Estado soberano. Nós temos 28 mil [bombas atômicas]. Por que eles não podem ter 10? Nós não falamos nada sobre Israel – eles têm cerca de 100 delas – ou sobre a Índia ou o Paquistão ou a Rússia” 19.09.2006” http://pt.wikipedia.org/wiki/Ted_Turner#Recentemente – típica argumentação burra de que um país que declara ter planos para destruir toda uma nação deve ser considerado e tratado da mesma maneira que outro com histórico sério e equilibrado -

CUBA – “Mas isso [que Fidel Castro executou (mandou executar) milhares de pessoas em Cuba] nunca foi, pelo que eu saiba, nunca foi provado.” – ah sim, as vítimas cubanas foram assassinadas pela forte e bem estruturada direita que existe em Cuba (para não consideramos el paredon um tipo de gripe forte que mata pessoas) http://www.foxnews.com/story/0,2933,465124,00.html – se negar o Holocausto é crime, o que esse senhor acabou de cometer com essa declaração é crime de mesma natureza.

E assim caminha a CNN, seus líderes e staff, sempre que possível, longe dos fatos (com raras exceções). Não sem razão Bill O’Reilly*, em seu livro Culture Warrior**, afirma que a CNN, “que nunca teve um âncora tradicionalista com a possível exceção do business man Lou Dobbs, inclina-se bem para a esquerda.”, mesmo sendo TED TURNER o maior latifundiário dos EUA (http://en.wikipedia.org/wiki/Ted_Turner), que diz o ser para fins de conservação ambiental, enquanto outros apontam se tratar de uma estratégia em conjunto com a ONU “para criar um vasto refúgio para a vida selvagem que expulsaria rancheiros e fazendeiros do Nebrasca.” (http://www.independent.co.uk/news/world/americas/turner-becomes-largest-private-landowner-in-us-761711.html).

*Âncora da Fox News Channel, canal que quando criado recebeu as seguintes palavras de Ted Turner: "esmagaremos a Fox News como um inseto" (p. 61 do livro citado abaixo) - engraçado que o inseto ficou não só maior que a CNN (do Teddy), mas sim maior que a combinação CNN e NSNBC (a rede de TV americana mais de esquerda que tem) - http://en.wikipedia.org/wiki/Fox_News_Channel#Ratings
.
**O’REILLY, BILL, Culture warrior, 1st ed., New York, Broadway Books, 2007, p. 58

domingo, 31 de maio de 2009


Alguns links interessantes com mais dados para entender esse velho movimento que opõe:

- quem acredita ser a verdade intangível e quem acredita poder atingi-la;

- quem aplica a retórica e quem aplica a dialética + lógica;

- quem fundamenta suas posições pelo critério da atualidade e quem as fundamenta pelo da veracidade;

- revolucionários e conservadores;

- sofistas e filósofos,

- esquerda e direita;

- filosofia moderna e Igreja,

- Wittgeinstein e Husserl,

- gnosticismo e cristianismo, ... :



É interessante perceber que o embate entre direita e esquerda é apenas uma parte do verdadeiro embate milenar, uma manifestação histórica dentre diversas outras desse embate.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

ARGUMENTO HISTÓRICO DO CONSERVADORISMO


Não bastassem os argumentos levantados nos artigos anteriores sobre o conservadorismo, que ao contemplarem a importância da conservação do conhecimento, contemplam necessariamente a natureza histórica dessa conservação, acho interessante comentar especificamente a importância dessa natureza histórica da conservação do conhecimento para a evolução do homem.

O que é o conhecimento senão a projeção (passiva e ativa) do que nos chega por um dos cinco sentidos em um contexto histórico de formas e conteúdos que se encontra em nossa mente? Fisiologicamente vemos o mesmo que um recém nascido, mas intelectualmente vemos muito mais. A conservação do conteúdo é essencial para a intelecção. A eliminação do conteúdo conservado transforma o contexto mental antes apto a articular com o novo e descartar os monstros produzidos pelo sono da razão em um contexto mental inerte, que aceita tudo e qualquer coisa. Em psicanálise chamaríamos isso de lavagem cerebral. Em sociologia chamamos isso de revolução. E elas não são coisas distantes umas das outras. Estou certo de não existe revolução sem lavagem cerebral. Como surgiriam Hitler, Stalin, Mao, Khomeini e cia. limitada sem pessoas majoritariamente influenciadas por cérebros lavados?

O livro 1984 de George Orwell* retrata muito bem isso: como é essencial matar a história para se atingir, ou no caso do livro, manter um Estado Revolucionário [alguns – que não leram o livro – tentarão argumentar que o Estado era Totalitário, ao que responderei: (i) não existe revolução que não seja totalitária – lanço o desafio por um único exemplo de revolução não totalitária em toda a história humana – e (ii) o livro é expresso ao dizer que o Estado era Revolucionário**.]. No livro a história é apagada de duas formas diferentes:

História sendo apagada do Conhecimento Geral

“What happened in the unseen labyrinth to which the pneumatic tubes led, he [o personagem principal, que trabalhava no Ministério da “Verdade” alterando notícias e informações publicadas] did not know in detail, but he did know in general terms. As soon as all the corrections which happened to be necessary in any particular number of the Times [revista Times] had been assembled and collated, that number would be reprinted, the original copy destroyed, and the corrected copy placed on the files in its stead. This process of continuous alteration was applied not only to newspapers, but to books, periodicals, pamphlets, posters, leaflets, films, sound-tracks, cartoons, photographs – to every kind of literature or documentation which might conceivably hold any political or ideological significance. Day by day and almost minute by minute the past was brought up to date.” p. 42 [Esse texto me faz lembrar das fogueiras de livros de Hitler e do Livro Vermelho de Mao.]

História sendo apagada do Conhecimento Individual

“‘You believe that you had seen unmistakable documentary evidence proving that their confessions were false. There was a certain photograph about which you had a hallucination. You believed that you had actually held it in your hands. It was a photograph something like this’. (…) ‘It exists!’ he cried. ‘No’, said O’Brien. He stepped across the room. There was a memory hole in the opposite wall [tubo onde os objetos lançados são sugados e destruídos para sempre]. O’Brien lifted the grating. Unseen, the frail slip of paper was whirling away on the current of warm air; it was vanishing in a flash of flame. O’Brien turned away from the wall. (…) ‘It does not exist. It never existed.’ ‘But it did exist! It does exist! It exists in memory. I remember it. You remember it.’ ‘I do not remember it,’ said O’Brien. (…) ‘There is a Party slogan dealing with the control of the past,’ he said. ‘Repeat it, if you please.’ ‘Who controls the past controls the future: who controls the present controls the past.’ Repeated Winston. (…) ‘Is it your opinion, Winston, that the past has real existence?’ Again the feeling of helplessness descended upon Winston. His eyes flitted towards the dial [botão que estava sendo apertado pelo O’Brian para dar choques no Winston sempre que o Winston dava uma resposta em desconformidade com o que os revolucionários queriam]. He not only did not know whether ‘yes’ or ‘no’ was the answer that would save him from pain; he did not even know which answer he believed to be the true one. (…) O’Brien held up his left hand, its back towards Winston, with the thumb hidden and the four fingers extended. ‘How many fingers am I holding up, Winston?’ ‘Four’ ‘And if the Party says that it is not four but five – then how many?’ ‘Four’ The word ended in a gasp of pain. The needle of the dial had shot up to fifty-five. (…) ‘How many fingers, Winston?’ ‘Four’ The needle went up to sixty. ‘How many fingers, Winston?’ ‘Four! Four! What else can I say? Four!’ The needle must have risen again, but he did not look at it. (…) ‘How many fingers, Winston?’ ‘Four! Stop it, stop it! How can you go on? Four! Four!’ ‘How many fingers, Winston?’ ‘Five! Five! Five!’ ‘No, Winston, that is no use. You are lying. You still think there are four. How many fingers, please?’ ‘Four! Five! Four! Anything you like. Only stop it, stop the pain!’ Abruptly he was sitting up with O’Brien’s arm round his shoulders. He had perhaps lost consciousness for a few seconds. (…) ‘You are a slow learner, Winston’ said O’Brien gently. ‘How can I help it?’ he blubbered. ‘How can I help seeing what is in front of my eyes? Two and two are four.’ ‘Sometimes, Winston. Sometimes they are five. Sometimes they are three. Sometimes they are all of them at once. You must try harder. It is not easy to become sane.’ He laid Winston down on the bed. The grip on his limbs tightened again, but the pain had ebbed away and the trembling had stopped, (…) ‘Again’, said O’Brien. The pain flowed into Winston’s body. The needle must be at seventy, seventy-five. He had shut his eyes this time. He knew that the fingers were still there, and still four. All that mattered was somehow to stay alive until the spasm was over. He had ceased to notice whether he was crying out or not. The pain lessened again. He opened his eyes. (…) ‘How many fingers, Winston?’ ‘Four. I suppose there are four. I would see five if I could. I am trying to see five.’ ‘Which do you wish: to persuade me that you see five, or really to see five.’ ‘Really to see them.’ ‘Again,’ said O’Brien. Perhaps the needle was at eighty – ninety. (…) The pain died down again. When he opened his eyes it was to find that he was still seeing the same thing. Innumerable fingers, like moving trees, were still streaming past in either direction, crossing and recrossing. He shut his eyes again. ‘How many fingers am I holding up, Winston?’ ‘I don’t know. I don’t know. You will kill me if you do that again. Four, five, six – in all honesty I don’t know.’ ‘Better,’ said O’Brien. (…) ‘Power is in tearing human minds to pieces and putting them together again in new shapes of you own choosing. Do you begin to see, then, what kind of world we are creating?’” ps. 258-279 [Gramsci e Pavlov, ambos “cientistas” que serviram à revolução, poderiam ajuizar uma ação contra George Orwell por plagiar tão bem suas idéias no texto acima. "Como poderia viver o homem se cada experiência fosse sempre uma nova experiência?"*** Só poderia viver se alguém estivesse sempre a seu lado "guiando-o" quanto ao que fazer em seguida.]

Até a língua, instrumento capaz de articular reflexões e expulsar os monstros produzidos pelo sono da razão, era transformada numa nova língua (Newspeak), com novos conteúdos que não permitiriam pensamentos “ruins”, leia-se: contrários à revolução (algo parecido com o que está acontecendo atualmente no movimento do Politicamente Correto), retratando muito bem as relações inversamente proporcionais entre conservação (sob o aspecto histórico) e dominação.

Não conservar o conhecimento é se tornar vulnerável a ver um monstro-produzido-pelo-sono-da-razão qualquer dominar sua mente, transformando-o em um cérebro lavado e vazio e em uma peça de um movimento revolucionário qualquer criado e dirigido por outros zumbis. Para quem sente: “Always the eyes watching you and the voice enveloping you. Asleep or awake, working or eating, indoors or out of doors, in the bath or in bed – no escape.”, vale lembrar que “Nothing was your own except the few cubic centimeters inside your skull” (p. 29) e que temos esse importante ponto de partida.


*Dados da versão de onde extraí os trechos acima: ORWELL, George Nineteen Eighty-Four, England, Penguin Books, 1987

**“The thing you invariably came back to was the impossibility of knowing what life before the Revolution had really been like.” p. 75 (esse é apenas um dos diversos parágrafos do livro que tratam o Estado Oceania como revolucionário; um parágrafo que expressa bem a morte da história no processo revolucionário).
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***"Como poderia viver o homem se cada experiência fosse sempre uma nova experiência? Como poderia ele manter a sua existência se tivesse que experimentar cada fato como algo de novo? Bergson exemplificava imaginando um homem que houvesse perdido totalmente a memória, e que não tivesse qualquer memória. Quando ele praticava um ato, esquecia-o totalmente logo após à prática, e o ato seguinte ser-lhe-ia inteiramente novo, sem qualquer ligação com os atos anteriores. Esse homem não poderia viver, se entregue a si mesmo, pois não lhe guiaria a memória nenhum de seus atos. Poder-se-ia queimar no fogo tantas vezes quantas dele se aproximasse; morreria de fome, pois não guardaria a memória do alimento para satisfazer aquela necessidade imperiosa." DOS SANTOS, Mario F. in Filosofia e cosmovisão, 6ª edição, São Paulo, Editora Logos, 1961, pg. 43

sábado, 9 de maio de 2009

FUNDAMENTO LÓGICO DO CONSERVADORISMO


“Para que surja uma ciência é necessário: primeiro, que alguns indivíduos tenham algum contato com algum tipo de objeto na sua experiência real; segundo, não basta que eles tenham tido esses contatos, é preciso que esses objetos se tornem como imagens ou sinais relativamente estabilizados na consciência, a ponto de eles poderem falar dessas coisas. Isso tudo antes de aparecer a ciência. Por exemplo, quando aparece a geometria, antes de aparecer o primeiro geômetra é preciso que alguém tenha percebido que existem quadrados, triângulos, etc. Sem saber nada de geometria. Mas ele precisa poder identificar essas formas de maneira estabilizada e poder falar delas.

E você acha que o homem nasce sabendo isso? Não, isso dá um trabalho miserável ! Ou seja, um sujeito, uma geração percebeu; percebeu mas não criou os termos para aquilo. Então aquilo se perde, e a geração seguinte tem que perceber de novo. Aos poucos, se diz: foi estabilizado na linguagem, temos o nome para essa coisa, então podemos começar a falar dela. É muito tempo depois de se poder falar dela que surge a idéia de estuda-la cientificamente. Mas tudo isso depende de registros que permitam a cada geração o retorno às mesmas experiências intelectivas que permitiram o surgimento da primeira investigação. Se você não é capaz de ter as mesmas intuições que Euclides teve quando estava compondo “Os Elementos de geometria”, você não poderia entender nada da geometria de Euclides. É que ela está montada numa ordem lógica que lhe permite estudar cada teorema para você mesmo intuir as relações que ele está querendo lhe mostrar.”
(gn)

E como se dá essa ordem lógica? O próprio professor Olavo, de quem retirei as palavras acima (1), lança a idéia:

“Dizemos que uma ciência progride. Por que? Porque as descobertas da geração anterior são premissas para as descobertas seguintes. Se você descobre um novo fato, esse novo fato se torna a premissa menor de um silogismo cuja premissa maior são os conhecimentos adquiridos anteriormente. É assim que a coisa vai andando, pois se você descobre um fato novo, mas não tem premissas com as quais articula-lo, você não tira conclusão nenhuma, daí a coisa não foi nem para frente nem para trás. As ciências só existem porque a progressão temporal vai sendo gradativamente montada sob a forma de uma progressão lógica.

Se o que vem antes é premissa do que vem depois, existe não apenas a relação temporal, mas uma articulação lógica. Claro que essa articulação lógica não se produz por si, que é cada novo pesquisador que, tendo descoberto alguma coisa nova, tem que articular aquilo logicamente com a anterior. Se ele não conseguir articular, das duas uma: ou o fato que ele descobriu é falso e aquilo não acontece, ou então a teoria anterior estava errada, daí ele tem que montar de outro jeito.”
(gn)

Que o processo acima é uma verdade para o conhecimento científico não questionamos afinal, a própria ciência surgiu dessa constatação filosófica, que consistiu na aplicação do método com a consciência de que se estava aplicando-o. A questão que devemos nos fazer é se podemos aplicar essa mesma leitura para o conhecimento humano não exato como método para desenvolver o conhecimento em outras atividades humanas, em especial, nas atividades humanas.

Para isso, proponho ao leitor que faça a releitura do texto acima, no qual encontrará trechos que negritei na conclusão de que referidos trechos poderiam sim serem perfeitamente aplicáveis a qualquer tipo de conhecimento humano. Mais do que concluir que podemos utilizar esse processo, acredito devermos nos pautar nele para chegarmos a melhores conclusões. E lanço como fundamento desse argumento dois exemplos que julgo simbólicos:

EXEMPLO 1

Sócrates, quando nos mostrou que a beleza não era uma substância etérea mas algo que poderia recair sobre diversas substâncias diferentes, acabou nos ensinando que é possível usar a progressão lógica do conhecimento em conhecimentos que não são propriamente pertencentes aos ramos da matemática e da física (como a relação entre atributo e substância). No Capítulo VIII do Livro III do livro Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates(2), Xenofonte lança o seguinte diálogo:

“Outra vez, inquirindo-lhe [a Sócrates] Aristipo se conhecia alguma coisa bela:

___ Sim, conheço muitas coisas belas – respondeu.
___ Serão todas semelhantes?
___ Tanto quanto possível, há as que diferem essencialmente.
___ Como pode ser belo o que do belo difere?
___ Por Júpiter! Como de um bom lutador difere um bom corredor, como da beleza de um venábulo, feito para voar com força e velocidade, difere a beleza de um escudo, feito para a defensiva.”


Sócrates não estava anunciando uma lei física ou uma regra matemática, mas “apenas” a a idéia de que as substâncias poderiam ter atributos e de que esses atributos não se confundiam com elas, embora só pudessem existir nelas, como viria dizer Aristóteles depois de descer o mundo das idéias de Platão para o nível de equivalência ao mundo das substâncias que referidas idéias pretendiam descrever.

Esse ensinamento foi uma das bases de uma proposta de análise dos fenômenos pela clave da Singularidade/Universalidade que só foi possível partindo do acúmulo de outros conhecimentos anteriores (o de Sócrates, neste caso), tendo sido ele: (i) muito proveitoso em seguida, para Platão e Aristóteles, tendo gerado mais conhecimento e (ii) pouco proveitoso nos Cínicos, Céticos, Epicuristas e Estóicos.

Os frutos de Aristóteles foram possíveis a partir dos frutos de Platão e assim sucessivamente. O filósofo Aristóteles, se tivesse nascido na Inglaterra daquela época, não teria existido. E muitos gregos viveram na Inglaterra daquela época em plena Grécia pelo simples fato de terem decidido pela ruptura drástica com o legado até então acumulado em lugar de sua conservação. E foram morar em barris, consolidando um importante exemplo do impacto da conservação de conhecimento para a evolução ou, no caso, do impacto de sua não conservação.

EXEMPLO 2

O Irã, país que podia se gabar até o século passado de não dever nada a Europa em termos de filosofia, na Revolução Iraniana (1979), jogou tudo isso fora para ficar basicamente com uma parte atrasada de sua religião, e hoje conta, por exemplo, com um presidente que quando fora prefeito de Teerã, dois anos antes, obrigara todos os homens da administração pública a usarem barba e camisa de manga comprida (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/story/2005/06/050625_perfilahmadcg.shtml) e que hoje quer “riscar Israel do mapa”, seja lá o que ele, que corre tanto com seu programa nuclear, quer dizer com isso. E isso não é novidade nessa recente história de 30 anos da República Islâmica do Irã (quem não se lembra do ataque contra judeus na Argentina em 94 coordenado pelo presidente Iraniano à época (http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/2007/05/15/ult579u2152.jhtm)?

É notório que, ao invés de avançar, o povo iraniano recuou séculos no tempo e hoje, aqui do século XXI, sequer conseguimos entender os discursos que vêm de lá. O movimento revolucionário iraniano, liderado parcialmente da França pelo aiatolá Khomeini (http://en.wikipedia.org/wiki/Neauphle-le-Ch%C3%A2teau), país de onde partiu para o poder no Irã (http://en.wikipedia.org/wiki/File:Imam_Khomeini_in_Mehrabad.jpg), influenciado por livros como Lês damnés de la Terre (http://en.wikipedia.org/wiki/The_Wretched_of_the_Earth), manual revolucionário comunista, traduzido para o persa (farsi) pelo Ali Shariati (http://en.wikipedia.org/wiki/The_Wretched_of_the_Earth), um dos principais ideólogos (se não o maior) da Revolução Iraniana (http://en.wikipedia.org/wiki/Ali_Shariati) que estudou islamismo, pasmem, com dois scholars franceses Luis Massignon (http://en.wikipedia.org/wiki/Louis_Massignon) e Jacques Berque (http://en.wikipedia.org/wiki/Jacques_Berque), jogou na lata de lixo uma imensidão de conhecimentos da cultura iraniana que deveriam ser conservados para que outras gerações pudessem avançar e que agora estão segregados até que a história prove empiricamente que a “não conservação” foi um ENORME erro (o que, no caso do Irã, deverá acontecer nas próximas duas gerações – quanto mais profunda a revolução, mais rápida ela acaba) e o processo evolutivo seja retomado.

E como isso poderia ser diferente? Da mesma forma que o foi para os Escolásticos, por exemplo, que mantiveram pela Igreja a religião judaica e o novo testamento juntos à filosofia grega e ao direito romano (3), o que permitiu o desenvolvimento do conhecimento adquirido até então, agregando, inclusive, grandes filósofos do Islã – São Tomás de Aquino, o maior escolástico, estudou profundamente Averrois (http://pt.wikipedia.org/wiki/Averr%C3%B3is) e Avicena (http://pt.wikipedia.org/wiki/Avicena), (este) por quem nutria grande admiração.

E, sendo o processo de acumulação de conhecimento um processo, como proposto por Olavo na transcrição que fiz no início do texto, por meio do qual o conhecimento novo se relaciona com o conhecimento conservado para, dialeticamente, formar uma nova síntese (evolução), podemos concluir que a conservação do conhecimento é logicamente necessária para a evolução dele, do que decorre, logicamente, ser o CONSERVADORISMO uma opção pela evolução e a REVOLUÇÃO uma opção pelo atraso, conclusão essa que, pela quantidade de exemplos históricos disponíveis, dispensaria o presente artigo.

(1) CARVALHO, Olavo de in Período Helenístico - coleção história essencial da filosofia, Aula 6, 1a edição, São Paulo, É Realizações Editora, 2006, p. 20 e 21
(2) Coleção Os Pensadores – Sócrates, 1996, Nova Cultural, p. 143
(3) RUSSELL, Bertrand in History of western philosophy, London, 2000, p. 19

segunda-feira, 4 de maio de 2009

FUNDAMENTO FILOSÓFICO DO CONSERVADORISMO


Peguei-me lendo hoje um INTERESSANTÍSSIMO trecho do livro A Sabedoria das Leis Eternas, no qual Mário Ferreira dos Santos, ao tratar da EVOLUÇÃO, descreve que:

“PARA QUE HAJA UMA EVOLUÇÃO, É NECESSÁRIO, consequentemente, QUE ALGO PERMANEÇA, que algo seja invariante, QUE ALGO SEJA CONSERVADO, enquanto algo se desenvolve nas atualizações das suas possibilidades, comproporcionadas à sua forma.” (...) “Toda coisa em si mesma é o que é pela forma que tem, pela lei de proporcionalidade intrínseca que a faz ser o que é e não outra coisa; mas este arithmos pode ser tomado em dois aspectos: in indivisibili e in divisibili. In indivisibile é a forma no sentido aristotélico, e in divisibile (divisivelmente, gradativamente) é o seu aspecto dinâmico, a sua dinamicidade.”1 (gn)

Faz todo o sentido que a evolução pressuponha a manutenção de algo que permita a identificação de que um determinado ser, não obstante as alterações sofridas, é o mesmo ser de antes, mudado, porém. Se isso não fosse possível, jamais conseguiríamos identificar mudanças. Tudo o que enxergaríamos seriam sempre coisas novas. E, mesmo que dispondo de uma memória perfeita, jamais conseguiríamos comPARar “seres” a fim de dizer: (1) pela paridade, se tratar do mesmo ser e (2) pelas diferenças, se tratar de um ser mudado. Estaríamos condenados a recriar eternamente a roda (isso se chegássemos lá).

Por isso, em sentido contrário, não faz sentido falarmos em revolução já que a revolução não aceita como ponto de partida o conhecimento (do ser) que adquirimos durante nossa evolução, conhecimento esse que algumas pessoas buscam conservar para dele extrair melhores produtos humanos (seja uma música, uma política administrativa de governo, um teorema matemático, um aplicativo econômico, um software, um novo prato na culinária, e assim sucessivamente).

Esse é, para mim, um belo fundamento do conservadorismo.

1. DOS SANTOS, Mario F. in A Sabedoria das Leis Eternas da Sabedoria, 1ª edição, São Paulo, Editora É Realizações, pgs. 91/92